1º Capítulo – Olhos Verdes

Acho que tenho algum problema, porque minha mãe não acredita em mim e principalmente acha que eu ainda tenho 10 anos. Eu não fui culpada, mas não podia dedurar a Maya, ela é a minha melhor amiga.
Estava no carro, indo para a casa do meu pai, minha mãe vivia dizendo que eu estava muito rebelde e que não conseguia viver mais comigo, e nem eu, ela me controlava demais.
– Mãe, acredita em mim! Eu não tenho culpa. – implorei para ela.
– Yumi! Se não foi sua culpa então fale de quem foi! – a indagou, mas fiquei quieta. – esquece, já tomei minha decisão, você vai ficar na casa do seu pai durante as férias inteira pra ter a consciência do que fez, você tem 17 anos, tem que saber o que é certo e o que é errado… – e blá, blá, blá…
Eu sei que tenho 17 anos, pra falar a verdade quase 18, mas não fui culpada, não fui eu. Eu sabia que podia fazer alguma coisa pra não ficar na casa do meu pai, meu pai namorava uma garota insuportável. E ficar lá com ela, era a pior coisa. Nunca acreditei que meus pais tinham se separado, por mais que isso aconteceu logo depois que nasci, é como se não tivesse pai, a presença dele na minha vida era muito pouca.
Quando chegamos, ele estava lá nos esperando.
– Filha! – gritou me dando um abraço.
– Oi! – Falei com uma voz seca.
Meu pai sabia o porquê estava lá, talvez só quisesse fazer uma cena, para depois começar a falar sem parar. Eu gostava dele, mas acho que criei uma raiva dentro de mim, por não ter ele por perto.
– Seu quarto está pronto, do jeito que você gosta. – Falou Mia, a namorada insuportável do meu pai, aquela voz de taquara rachada me dava náuseas. Agradeci com um sorriso amarelo e subi para o quarto.
Não mudou muita coisa, costumava passar alguns verões aqui, e até alguns finais de semana, mas isso quando eu tinha 10 anos. Ele mudou os móveis e as cores, antes era rosa, ele acertou na cor, decorou com roxo. Talvez passar um tempo aqui não seria tão ruim, coloquei minha bolsa na cama e quando me preparei para deitar, ouvi minha mãe gritar.
– YUMI! Por favor, desça aqui.
– O que foi? – perguntei descendo a escada.
– Precisamos conversar. – falou, estendendo a mão para eu sentar no sofá.
Percebi que pelo jeito, iria ser uma conversa longa, cheio de blá, blá, blá e lições de moral. Sentei no sofá e encolhi as pernas.
– Seu pai e eu conversamos e achamos uma boa ideia você fazer algo de diferente nas suas férias. Você vai trabalhar com seu pai na loja e tente se comportar. – disse minha mãe, olhando como se fosse me vigiar todos os dias.
Eles achavam que trabalhar naquela loja velha de discos e cd’s vai me ajudar em algo? Só que me faltava, o que iria ajudar, era só o meu tédio. Precisava falar com a Maya urgente, ela disse que resolveria essa história.
– E tem mais, você vai ficar sem internet! – ela estava adorando falar isso.
Meu pai olhava com uma cara de preocupação, mas consentia com meu minha mãe.
– Yumi, é o único jeito, você não vai voltar comigo, preciso resolver umas coisas e não quero que se meta em confusão. Você ta entendendo? – minha mãe sabia ficar brava.
Consenti com a cabeça. Eu sempre tive uma boa relação com ela, mas quando eu entrei no curso de moda e de design e conheci Maya, minha mãe começou a pegar muito no meu pé. Eu nunca tive muitas amigas, e a Maya foi a única que veio falar comigo e sempre estava comigo. Eu sei que com 18 anos, a maioria das pessoas já estão bem de vida e já sabem o que querem, mas minha família é bem complicada.
Eu morava em Akita, Japão, meu pai morava do outro lado da cidade, na verdade, uma aldeia fora da cidade, mas ainda era considerada Akita. Era um lugar meio afastado da urbanização. Quando subi para o quarto, deitei na cama e fiquei pensando em tudo o que estava acontecendo, indaguei se Maya era amiga de verdade, se eu podia confiar nela. Mas logo esse pensamento foi embora, é lógico que podia confiar nela, era a única que podia confiar. Era um sábado já estava quase escurecendo, não tinha o que fazer e acabei adormecendo.
Acordei no meio da noite e desci para beber um copo d’água. Eu sempre fazia isso, minha mãe tinha o sono muito leve, então eu pisava bem devagar pra não acorda-la. Entrei na cozinha, peguei um copo e a garrafa na geladeira. Ouvi umas vozes no quintal. Olhei pela janela e tinha um carro preto parado. Achei que era do vizinho e de repente ouvi uma voz conhecida, uma voz que conheceria em qualquer lugar, Mia! Mas o que ela estava fazendo lá fora, com o meu pai não era a voz da pessoa era mais grossa. Fui andando um pouco mais para a janela, mas não consegui ver direito. Vi que ela saiu do carro, estava com um casacão. Sempre achei que Mia não gostava do meu pai, acho que estava certa. Fui para sala e me escondi atrás do sofá, enquanto ela entrou pela porta da cozinha. Seu rosto tinha um sorriso enorme, ela subiu para o quarto e eu fiquei sem palavras. Não sou nenhuma criança, sei que ela estava traindo meu pai, eu ouvi, a vi saindo do carro de outro homem. Minhas pernas tremiam, e eu só conseguia pensar em uma coisa “O que eu faço? Será que é verdade?”. Já estava quase amanhecendo, fui para o quarto, mas não consegui dormir.

Amanheci pensando na noite passada, no que eu tinha visto no que eu tinha ouvido e no que fazer. Pensei em perguntar para Mia, mas acho que ela mentiria e lógico falaria que eu estava inventando. Pensei em falar com meu pai, mas ele iria dizer que estou mentindo, porque sabe que não gosto dela. E não acreditaria em mim. Então, respirei fundo, pensei “eles são bem grandinhos, já sabem o que faz, não vou me intrometer”.
Troquei de roupa e desci para tomar café, como não consegui dormir direito, para um domingo de manhã, tinha acordado muito cedo. Meu pai estava preparando o café matinal. Dei bom dia e recebi um beijo no rosto, fiquei um pouco sem graça, ainda mais pelo meu comportamento. Preparava meu leite, quando meu pai perguntou sobre abrir a loja juntos, estava bem alegre e empolgado, como não tinha escolha, respondi que sim, mas não tão empolgada quanto ele.
Tomamos o café da manhã, sem dizer uma palavra. Reparei que Mia ainda não tinha acordado, então perguntei sobre ela, ele me disse que ela perdeu o sono durante a noite. “Deve ser por causa da festinha.” Pensei comigo.
Quando terminamos, fomos para o carro, era uma caminhonete preta. Eu já tinha uma carta de motorista, mas não dirigia com freqüência. A loja ficava a uns cinco quarteirões da casa.
– Ah, fiquei pensando de a gente ir comer fora essa noite, o que acha? – perguntou ele, querendo iniciar uma conversa.
– Hum, legal… Pai, você sabe o que aconteceu e mesmo assim age como se não tivesse acontecido, por quê? – perguntei intimando.
– Yumi, quando você quiser e estiver pronta para conversar sobre isso, eu estarei totalmente ao seu dispor e ouvirei com o maior prazer, ok?
Fiquei constrangida, eu fui com sete pedras na mão e ele me desarmou rapidinho. Achei que ele iria começar a falar igual à mamãe. Mas me deu um alivio de certa forma, assim posso pensar melhor e respirar. Só não quero ficar aqui.
Quando chegamos à loja, fiquei pensando em como passar o tempo naquele lugar velho e cheio de mofo. Meu pai pediu para ficar no caixa e se possível der uma limpada, dei uma olhada de lado, não estava muito a fim. Vi que ele estava mexendo em umas caixas velhas, perguntei se queria ajuda, mas ele recusou.
Peguei o pano que estava em baixo do balcão e fui limpar, realmente estava precisando. Logo chegou o primeiro cliente do dia. Um homem um pouco mais velho que meu pai, um estilo bem diferente, parecia roqueiro. O homem percorreu algumas prateleiras e parou na sexta, achou alguns cds e veio em minha direção. Fiquei um pouco envergonhada, pois não sou boa com público, mas até que me sai bem, dei o troco e ele foi embora. Até o horário do almoço apareceu mais uns três clientes, a maioria procurando por cds antigos e até mesmo por vinis, e eu achei que vinil já não existia mais e tem gente que ainda ouve.
– Yumi, pode me ajudar com essas caixas? Vou levar para o carro. – disse meu pai colocando uma caixa no balcão.
Concordei com a cabeça, pegando a caixa. Ela estava cheia de discos de vinil, coloquei na caçamba da caminhonete e esperei ele colocar a segunda caixa. Ele me pediu para fechar a loja, já estava na hora do almoço e era Domingo, ficava aberto só até o meio dia. Entrei no carro e estava me perguntando aonde iriam essas caixas, talvez para um bazar de doações. Mas nem precisei perguntar, acho que ele viu meu olhar de curiosidade.
– Todo mês, eu levo alguns vinis para uma ONG de idosos. São discos antigos, que ficam aqui mais de um mês, como ninguém vai comprar, eu faço a doação, assim ajudo aqueles idosos há sorrir um pouco. – disse, e em seguida olhando para mim com um sorriso franco, com certeza era para ver a minha cara de surpresa, e sem dúvida, era essa a cara que eu tinha naquele momento.
Não gostava de músicas antigas, mas também não criticava, só achava que não tinha ritmo. Entramos em uma casa velha, mas bem cuidada, logo na entrada, havia uma faixa escrita “Precisa-se de voluntários, pacientes com idosos.”, pensei que deve ser chato cuidar de idoso, porque não tem nada para fazer, pensamento preconceituoso. Meu pai estacionou e nós saímos. A mocinha da recepção já conhecia meu pai, pediu para esperar um pouco, que a Melissa, responsável pela ONG, estava ocupada no momento.
Reparando no lugar, percebi que tinha muitos idosos e era um lugar bem diferente e bonito. Enquanto nós esperávamos, estava andando pelo corredor até uma porta de vidro, onde pude ver um jardim enorme e um mural do lado, com várias fotos.
– Yumi, vem! – meu pai me chamou. Peguei a caixa e o segui, fomos para uma sala bem pequena, onde Melissa nos esperava bem sorridente. Colocamos a caixa em cima da mesa e ela disse que depois levava para a sala de músicas. Ela olhou para mim e em um momento súbito me perguntou: “Você gostaria de ser voluntária? Você parece ser muito gentil e além disso seu pai me falou sobre passar alguns dias aqui, vai ser bom para você!”
Fiquei assustada, gaguejei minha garganta não descia saliva nenhuma, não tinha como, não era boa nisso, mas meu pai começou a insistir e foi mais rápido que eu ele disse sim, por mim! Fiquei brava, mas não demonstrei, concordei com um sorriso. Eu não sei bem ao certo no que estava me metendo. Fomos para a casa depois.
No dia seguinte, trabalhei no período da manhã na loja e a tarde fui para a ONG, fiquei receosa. Estava nervosa. Entrei e a moça da recepção logo me reconheceu – acho que não seria tão difícil assim de me reconhecer, olhos puxados -, me disse para seguir reto, segundo corredor à direita, é a primeira sala da esquerda, que teria um ajudante para eu me familiarizar na ONG.
Segui reto e só conseguia pensar o porquê estava ali. Cheguei à porta, respirei fundo, contei até três, mas quando fui abrir a porta, alguém de lá de dentro foi mais rápido, abriu primeiro. Dei uma cambaleada e me recompus rapidamente, mas quando olhei aquele par de olhos verdes, olhando para os meus quase cai para trás novamente.
– Você está bem? – perguntou o garoto dos olhos verdes.
– S..si..sim! – respondi gaguejando.
Recompus-me novamente e ele começou a falar.
– Você deve ser a nova voluntária, me chamo Takawo, prazer em conhecê-la – se apresentando e estendendo a mão.
“Voluntária não, forçada na verdade” – pensei comigo, mas deixei pra lá.
– Sim! Sou eu! Yumi, prazer em conhecê-lo também! – respondi sem graça.
– Desculpe se te assustei – lamentou.
– Tudo bem! – respondi.
– Bom, vamos entrar, gostaria de te apresentar! – falou entusiasmado, dei um sorriso de lado, mas achei estranho “como alguém tão lindo como ele, podia ficar entusiasmado com idosos?! Tudo bem que fui um pouco preconceituosa, mas não tinha paciência nem com a minha mãe, imagine com pessoas mais velhas.” – pensei comigo antes de entrar.
A sala era um pouco grande e tinha alguns idosos assistindo televisão, outros jogando xadrez e outros bem quietos sentados no sofá.
No começo era difícil mesmo, me senti como um patinho fora da lagoa, ali não era o meu lugar, era o que meu consciente pensava. Mas o incrível que pareça, esse garoto dos olhos verdes (só conseguia chamá-lo assim) me fazia sentir útil e me inspirava confiança, tão poucas horas que fiquei ali dentro, vendo Takawo cuidando e sendo amoroso como se fossem pessoas da família, me fez sentir realmente algo diferente em meu coração.
Takawo era mais velho que eu, uns dois anos, tinha um porte físico magro, nada cheio de músculos, moreno e aqueles olhos verdes que me arrancavam suspiros. Seu estilo era bem do jeito que eu gostava calça jeans, camiseta branca e um tênis. Bem simples e despojado.
Passou tão rápido o tempo, que nem percebi. Todos os idosos foram muito gentis comigo e me trataram super bem. Fui pegar a minha bolsa, dei um tchau pra todos e fui falar com Takawo, vi que ele estava ajudando um senhor se levantar, cheguei perto com a intenção de ajudar, mas não foi preciso, ele levantou rápido e me olhou novamente em meus olhos, fiquei sem graça.
– Eu estou indo! Você… Vai embora mais tarde? – perguntei sem jeito.
– Sim, vou sim! Boa noite Yumi – respondeu naturalmente.
Sai e fui caminhando, era um pouco perto da loja, meu pai estava me esperando. Senti-me estranha, aquele garoto tinha algo diferente, misterioso. Algo que fazia querer ficar perto dele.

[…]

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