T E X T O S

Conto: um sábado a noite

Eu sempre gostei muito de escrever, lembro que aos 14, tentei escrever um livro, que claramente não consegui continuar, mas eu tenho vivido momentos diferentes na minha vida, momentos em que eu tenho aprendido a lidar com os meus próprios conflitos, e a escrita tem sido minha terapia e eu to amando voltar a escrever, talvez consiga destravar essa ideia de colocar os meus contos apenas pra mim…

Era um sábado sem pressa, desses que acordam antes da gente. Levantei cedo para a academia, depois um brechó com amigas — roupas com histórias alheias, cheiros de outros tempos. Eu estava quieta por dentro, num silêncio confortável, desses que não pedem resposta. Um podcast me acompanhava, falando sobre o que é “dar certo”. Dar certo pra quem? Dar certo é sempre virar namoro? Esse tipo de pergunta me atravessa com facilidade. Talvez por isso eu flerte com a ideia da psicologia: entender as entrelinhas do que a gente sente.

À noite, eu tinha um compromisso com amigos de muitos anos. Amigos de quase vinte, desses que viram suas versões crescerem, errarem, acertarem, se perderem e voltarem. Eu estava feliz. O ano tinha começado diferente, mais leve, mais vivo. Eu me via outra — com brilho nos olhos pra vida, sabe?

O lugar escolhido era um aconchego só: comida de rua italiana, mesas pequenas, luz quente. Comemos, bebemos, fofocamos. Rimos alto e falamos fundo. Relacionamentos, amizades, família. As conversas iam e vinham como o vinho no copo. E no meio disso tudo, senti um quentinho no peito: a certeza de que eles estarão comigo por muito tempo. Amizade de verdade não faz barulho — ela fica.

Foi quando o celular apitou. “E essa gata vai pra onde?”

Eu tinha postado uma foto antes de sair. Confesso: meu corpo reagiu antes de mim. Um arrepio curto, certeiro. Assustei com o sentimento inesperado, como quem esbarra numa memória boa sem aviso.

Se existe uma combinação infalível, é vinho com vontade de viver. Ela ativa em nós um tipo de coragem quase irresponsável, que leva a sério a frase “só se vive uma vez”. Em algum momento da noite, me peguei questionando a vida, os caminhos, o que eu queria. E eu sabia. Sabia com clareza.

Quando me dei conta, estava a caminho de quem tinha feito meu coração lembrar de uma boa memória. Eu não sabia que estava com saudade até o lábio dele tocar o meu. Até nossas bocas encontrarem um ritmo próprio, como se lembrassem sozinhas do caminho. A mão na cintura, depois no cabelo. O toque leve, atento. E o pensamento atravessando tudo: ainda bem que eu vim.

Havia sorrisos, um abraço demorado. E então o convite: — Fica comigo essa noite.

Eu nem sabia como dizer não. Talvez porque, no fundo, eu não quisesse dizer.

O sábado escorreu para o domingo. E eu acordei com um sorriso manso no rosto, levando comigo a ideia de que nem todo sábado à noite é só um sábado à noite. Que alguns convites arrepiam porque pedem coragem. E que segui-los, às vezes, é a forma mais bonita de viver uma boa história.

Um conto real, de personagens reais, onde a vida empresta o enredo e a literatura acrescenta o sentir

– M

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